Há já muito tempo que a sua fama transpôs as fronteiras portuguesas, quer como símbolo de uma região, dum país, quer como lembrança que muitos visitantes levam consigo.
Este símbolo colorido e garrido adquiriu uma identidade própria, mas perdeu no passar dos tempos a sua origem concreta.
Associado à criação artística, existem as lendas, ou melhor, a lenda, embora narrada em diversas versões, que subjaz e está na origem da criação de tão sui generis peça do artesanato português.
Todavia, o concelho de Barcelos é muito extenso e a olaria predomina em algumas localidades, não em todo o concelho. Também não se conhece que na cidade tenha havido uma actividade cerâmica muito forte. Isto para dizer que a denominação de “Galo de Barcelos” carece de alguma verdade, enquanto criação artística como tal.
Certo é que todas as freguesias de Barcelos fazem parte do concelho, mas também todas elas têm um nome próprio, uma identidade própria, uma tradição e uma cultura que merecem ser valorizadas e estimuladas. Por isso, não devemos metonimicamente atribuir todas as coisas a uma só terra: Barcelos. Devemos sim colocar cada coisa em seu lugar e dar o seu a seu trono.
E respeitante à questão do denominado “Galo de Barcelos”, como figura artística e decorativa, convém não ter medo de identificar o seu berço e também revalorizar a gente e a terra que o criou: Galegos Santa Maria. Esta é a terra onde ainda hoje os seus artesãos dão vida a tão famosa peça do artesanato português, símbolo de uma região, símbolo de um país.
“Quem quer que visite Portugal é confrontado, desde a sua chegada ao Aeroporto de Lisboa, com o galozinho pintalgado que se vende em diversos tamanhos como recordação de viagem. Este pequeno galo é o testemunho duma longa tradição que nos transporta a Barcelos e à história cativante do enforcado salvo miraculosamente por Santiago de Compostela, lenda que, durante a Idade Média conquistou a Europa Ocidental e Meridional” (MEYER, Maurits de, “La légende du pendu miraculeusement) sauvé par Saint Jacques de Compostelle et le témoignage du coq rôti”, in Revista de Etnografia, vol. XV, tomo 1, Porto, Outubro de 1970). O relato deste etnógrafo belga ajuda a reforçar a ideia de que é a lenda que origina a criação do galo de barro, que se encontra em qualquer parte de Portugal e espalhado pelo mundo.
Já foi dito que o berço desta criação foi e continua a ser a freguesia de Galegos Santa Maria.
Mas quem foi o seu criador?
Para esta questão há só uma resposta: a pessoa que fez o primeiro “Galo de Barcelos” em barro foi Domingos Côto. Esta é a verdade que muitos procuram encobrir. E não é sem fundamentos que aqui é apresentada.
“Barcelos - a terra dos galos - assim é conhecida em muitas paragens esta parcela do Minho.
Com efeito, esta figura típica da louça de Barcelos, de fundo escuro, crista vermelha, pintalgada de corações (o mais vulgar), teve o seu nascimento em Galegos Santa Maria , pela mão do Oleiro Domingos Côto, na década de trinta. Primeiramente o galo era feito à mão, começou depois a ser fabricado à roda e em série, de todos os tamanhos, em quantidades industriais. Hoje corre mundo como embaixador de Portugal. E não tem representado mal o seu país.”
Não sei por que razão esta verdade nunca foi encarada frontalmente e assumida com clareza pelas entidades competentes. Seriam tantas as incertezas que levavam a evitá-la? Ou pelo contrário, será o não querer compartilhar a verdade a que todos têm direito?
Mas outros argumentos se podem citar. No livro intitulado Barcelos no Passado e no Presente, de Ernesto Amorim Magalhães, editado em Barcelos no ano de 1958, encontra-se na página 244 um pequeno texto relativo à freguesia de Galegos Santa Maria, onde se pode ler o seguinte: “E lembramo-lo já porque é na dita freguesia que se fabricam os Galos de Barcelos”. Também em artigos de jornais se podem encontrar testemunhos referentes a este assunto e que atestam aquilo que vem sendo dito.
No entanto, e procurando um vasto leque de provas impunha-se que este assunto fosse também tirado a limpo junto dos familiares de Domingos Côto.

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